SERAFINA - FOLHA DE SÃO PAULO

São Paulo, domingo, 23 de maio de 2010


Cores Verdadeiras

por JOCA REINERS TERRON

A história de David Quiles Guilló, o criador da revista "Rojo" que saiu da Espanha para vender sapatos no Brasil e acabou curador de arte


David Quiles Guilló não vivia um momento dos mais entusiasmantes de sua vida quando começou a encontrar clipes perdidos (aqueles, de escritório) pelas ruas de Barcelona. Ele havia lançado os três primeiros números da revista "Rojo" e não encontrava patrocínio para a quarta edição. Deprimido com as dificuldades, David zanzava cabisbaixo pelas ruas do bairro de Gracia.

Deixara de caçar grafites pelos muros e perscrutava calçadas em busca de clipes, até decidir que eles eram a manifestação da energia que precisava recuperar. Foi então que David começou a guardar os clipes no bolso.

Virou coleção. Clipes azuis, amarelos, vermelhos de todos os formatos e cores, encontrados nas calçadas de Espanha, Alemanha, França, e pelas ruas do mundo. David acreditava que os clipes representavam a saída daquela situação indesejável. Por outro lado, indicavam que ele andava olhando demais para baixo. O terceiro número da "Rojo" fugira do formato original de revista –como não havia grana, acabou saindo em formato de CD de música experimental. A revista então era distribuída gratuitamente (foi assim até a oitava edição) e sua saúde financeira não era exatamente de ferro: a "Rojo" estava no vermelho.

Até tirar os olhos do chão e conhecer alguém que lhe indicasse um possível patrocinador, David seguiu colhendo clipes. "Você não acreditaria na quantidade de clipes que existe por aí jogada nas calçadas", diz. A caminho da reunião que poderia resolver seus problemas, ele não encontrou nenhum clipe. Bastante preocupado, ao chegar ao local do encontro, David deu de cara com duas caixas lotadas de clipes até a boca. Sem hesitar, encheu os bolsos. E tudo deu certo. Depois de estreitar laços com os executivos da Adidas, garantiu a existência de mais quatro edições da "Rojo". A revista deslanchou, transformando-se num modelo pioneiro de publicação de design gráfico e artes plásticas que é copiada à exaustão até hoje, às vésperas de completar dez anos de existência.


Questão de fé

Filho de um industrial de calçados, David Quiles Guilló, nascido em 1973 na cidadezinha de Elche, província espanhola de Alicante, recebeu forte educação religiosa em uma escola da Opus Dei. "Não foi uma época das mais bacanas, mas também não dá para dizer que não aprendi alguma coisa", afirma, driblando os ésses com seu sotaque castelhano. "Não sou exatamente religioso, mas acho que boa parte da fé de que necessitei para realizar meus projetos é fruto daquela temporada." Ao terminar a escola fundamental, aos 13 anos, David foi enviado pelo pai aos EUA para prosseguir seus estudos. "Lá eu me tornei uma espécie de nômade escolar. Vivia mudando de colégio", diz. "Isso até chegar à Cambridge School of Weston, em Massachusetts, uma época que nunca vou esquecer."

Na nova escola, David tinha, entre outros companheiros de arruaça, o jovem  guitarrista Nick Zinner (da banda nova-iorquina Yeah Yeah Yeahs). "Aquele período da high-school foi maravilhoso. Foi lá que eu descobri que podia ser aquilo que bem entendesse, contanto que fosse com amor e liberdade. Quero que minhas filhas também estudem lá."

Ouvi-lo se lembrar disso ao mesmo tempo em que pede para que Olívia, sua filha de dois anos, calce os sapatos, faz com que David se recorde de seu pai, Pepe Quiles. "Meu pai queria que eu trabalhasse com ele na fabricação de calçados", afirma, meio contrariado. Enquanto isso, bagunça a cabeleira já imensamente bagunçada. "Mas eu queria realizar as minhas coisas, e não as dele. Àquela altura, eu já me considerava um artista."

Firmando-se em Barcelona, David aceitou convite para desenhar os uniformes da equipe olímpica espanhola que disputaria as Olimpíadas de Barcelona em 1992, a serem fornecidos pela empresa de sua família. "Era uma multinacional que bancava dez times da primeira divisão do campeonato espanhol de futebol. Também produzia chuteiras e patrocinava o Real Madrid."


Novela no Brasil

Graças à insistência do pai, David conheceu o Brasil. "Vim para cá em 1995 para vender sapatos. Eu não ganhava mais do que os outros por ser filho do dono. Meu pai me dizia que um dia a empresa seria minha." No Brasil, Quiles montou um time de representantes de vendas dos materiais esportivos da Kelme. "Eu trabalhava duro o dia inteiro e à noite assistia à novela. Aprendi a falar português vendo ‘Explode Coração’." Depois de passar dois anos no Brasil, David voltou para Barcelona "E o pior é que meu pai acabou perdendo a empresa em 2003, graças a problemas financeiros."

De volta ao Brasil em 2008, David segue com galerias em Barcelona e Milão, além de ser curador da Rojo®Nova mostra multidisciplinar que transformará o Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, num "work in progress" durante os meses de julho e agosto.

Mas por que o Brasil? "Graziela, minha mulher, é brasileira, e queria ter nossas filhas aqui. A mais nova, Martina, nasceu há 11 meses." Assim como a "Rojo" se baseia no conceito da atemporalidade artística, David Quiles Guilló acredita pertencer a uma geração sem lugar. "É a ‘liquid generation’, uma geração que não se restinge às fronteiras e às nacionalidades", pensa. "O resto é seguir inventando e usando os princípios que aprendi no colégio de padres: não faça mal aos outros, seja generoso, etc.", diz, enquanto acompanha as filhas brincando e o seu coração parece explodir, tão vermelho como indica o nome de sua revista. David  agora está descalço e sente-se completamente livre.



david quiles guilló ©2oo1-2o22